21.12.14

Entrevista com o escritor Helder Caldeira .

Hey Leitores , Hoje eu estou trazendo uma entrevista com um escritor muito mais que especial para mim , Porque eu amo o livro que ele escreveu Águas Turvas e que foi sucesso de vendas no Brasil ! ( Resenha Aqui ) ,e ele é muito gente boa , Helder sou grande admirador do seu trabalho ! Então eu espero que vocês gostem e aproveite para conhecer mais sobre o Helder e seu trabalho !


Nos fale um pouco de você.
Gosto de acreditar que uma criança, no limite de seus conhecimentos do mundo e de sua ingenuidade, é capaz de revelar sua verdadeira identidade melhor e com mais sabedoria do que em qualquer outra etapa da vida. Quando eu era criança e surgia aquela famigerada pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, respondia sem pestanejar: quero ser Diplomata. Naquele momento e no limite do meu universo, ser diplomata significava adquirir conhecimento sobre tudo. Não me tornei um diplomata, assim como nunca fui um bom jogador de bolinha-de-gude. Mas, é vívida a lembrança da felicidade que senti quando, naquela época, encontrei no dicionário o significado de “gude”. Isso bem resume quem sou hoje.

De onde vem a inspiração para escrever?
Sempre escrevi muito, desde criança. Minha mãe, meu pai, meus avós sempre fizeram questão de incentivar-me a ler e escrever. De alguma forma, escrever tornou-se orgânico à minha vida. Tenho vontade escrever da mesma forma que tenho sede ou fome. Sinto que escrevo para sobreviver. Quando, por algum motivo, não consigo escrever, adoeço. Nesse sentido, não acredito que a inspiração venha de algum lugar. Ela está conosco... todo o tempo.

Existe algum(a) escritor(a) que te inspira?
Há duas escritoras que permeiam o inconsciente das minhas predileções: a imortal brasileira Rachel de Queiroz; e a premiada jornalista norte-americana Annie Proulx. O conjunto da obra dessas mulheres é irretocável.

Qual a melhor coisa de ser escritor?
Viver à beira do abismo. Ser escritor implica abandonar uma vida medíocre e arriscar-se numa jornada imaginária de criação, um passeio perigoso por universos outros. Equilibrar-se diante desse abismo entre a realidade e a fantasia é um risco... e também um gozo.

Você encontrou dificuldades para publicar seu primeiro livro?
Como em qualquer outra atividade profissional, o exercício da escrita exige qualificação e dedicação. No entanto, em profissões ligadas às Artes, há o fetiche equivocado de que o reconhecimento profissional está relacionado proporcionalmente à fama, ao “celebritismo”. Justo por isso fala-se sobre a dificuldade de publicar livros no Brasil como se fosse uma jornada heróica, um feito histórico. No passado talvez isso fosse realidade. Atualmente, é muito fácil publicar um livro. Para além das inúmeras editoras, existem vários sites que oferecem serviços e ferramentas de editoração e impressão no sistema “print-on-demand”. Isso sem falar naqueles que optam por publicar suas obras exclusivamente na internet ou nas redes sociais. Além do mais, registrar uma obra junto à Fundação Biblioteca Nacional, do Ministério da Cultura, é um processo relativamente tranquilo e seguro. Ou seja, publicar é fácil. Difícil é ter o indispensável domínio da ferramenta linguística para escrever bem, para traduzir a imaginação em palavras.

Já escreveu algum livro que não conseguiu publicar?
Não. Praticamente tudo que escrevi até hoje consegui publicar. Quando não tinha editoras interessadas pelas minhas obras, embarcava sem medo e sem preconceitos no “self-publishing”.

Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
Neste momento estou escrevendo um novo romance que será entregue à Editora Quatro Cantos, responsável pela publicação das “Águas Turvas”. A temática será a mesma e ela pode publicar ou não. Mas, não estou preocupado com isso agora. Meu foco é escrever.
  
Pra você, qual é o melhor gênero literário?
Difícil escolher. Recentemente reli dois livros de gêneros absolutamente distintos com a mesma fascinação: o extraordinário romance “Se eu fechar os olhos agora”, do Edney Silvestre; e “Teatro Oficina: onde a arte não dormia”, uma bela narrativa biográfica da atriz e diretora Íttala Nandi. Noutras palavras, não tenho um gênero literário favorito. Com o mesmo encantamento e profundidade, leio Stephenie Meyer e Lord Roy Jenkins. Só depende daquilo que pede minha alma.

Como se sente ao ver seus livros numa livraria, ou vendo alguém lendo?
É uma emoção tão grande quanto estranha. Certa vez, eu estava na antiga livraria do Aeroporto de Brasília tentando decidir qual seria meu “companheiro de viagem” quando, atrás de mim, uma voz grave anunciou: “Pode comprar esse aí. É muito bom!” Nas mãos eu tinha o livro “Política para não ser idiota”. Sem olhar quem recomendava, perguntei: “Será que é bom mesmo?” Ele foi assertivo: “Esse livro é maravilhoso!”, seguido de uma sonora gargalhada. Quando olhei pra trás para conferir, tratava-se do próprio autor, Mário Sérgio Cortella. Gargalhei eu. Mais tarde, enquanto lia a obra durante o voo, fiquei imaginando o que um escritor sente ao ver alguém lendo seu livro. À época eu não tinha obras publicadas e não cheguei a conclusões satisfatórias. Hoje tenho livros publicados, mas continuo sem conclusões.

No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Depende do período. Quando estou em fase de produção, não leio livro algum, seja pela exiguidade de tempo, seja para não poluir o processo criativo. Noutros períodos, leio um ou dois livros por mês. Mas, isso é muito relativo. Numa única semana, li todos os volumes da trilogia “Millennium”, do sueco Stieg Larsson, uma obra cativante. Logo depois, comprei um romance “badalado” de um cidadão também “badalado” e, dois meses depois, ainda não tinha conseguido chegar à metade da obra. Foi pra estante e de lá nunca mais saiu.

Como foi a escolha da capa e do título do livro?
“Águas Turvas” nasceu exatamente numa tarde de sábado, quando senti uma emoção diferente ao ouvir o clássico “Bridge Over Troubled Water”, em sua primeira gravação, quando seus compositores Paul Simon e Art Garfunkel ainda cantavam juntos. Como o amor pode transformar as pessoas, especialmente nos momentos mais difíceis? Esse acabou sendo o ponto de inflexão que me levou a escrever a história do amor que uniu Gabriel, Justin e Matthew.


A capa foi um trabalho incrível idealizado pela publisher Rosana Martinelli e transformado numa verdadeira obra de arte pelo fotógrafo paulista Luiz Laércio Barbosa. Quando vi o resultado, chorei. Eles tinham “pescado” exatamente o momento que eu, como escritor, tinha como apogeu do livro e transformaram em realidade. Fiquei imensamente feliz e agradecido por tamanha deferência e profissionalismo.

Como você descreveria seu livro?
Há quem diga que “Águas Turvas” é um romance gay, Literatura LGBT. Há quem diga que esse gênero não é adequado à obra, porque a história vai muito além do amor entre Gabriel e Justin. Particularmente, gostei muito da crítica realizada por Maurício Melo Júnior em seu programa “Leituras”, na TV Senado, que classificou o romance como Literatura de Entretenimento.

Qual o livro mais marcante que você leu até hoje?
“Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz. Foi leitura obrigatória durante o Ensino Médio e serei eternamente grato ao professor Carlos Eugênio da Silva Rêgo por apresentar-me à obra. Para além da história poderosa e marcante, foi a primeira vez que li algo com aquela estrutura de narrativa polifônica, contanda sob o ponto de vista de múltiplos personagens, e foi algo que me marcou profundamente.

Como foi a criação dos personagens do seu livro? Você se inspirou em pessoas de seu convívio para criar cada personagem e cada nome?
Eu considero a fase de criação das personagens a mais espetacular. No meu caso, além de algumas experiências, é uma fase de grande pesquisa e de um poder quase divino. Cada nome, cada personalidade, o tom de voz, a cor do cabelo... tudo precisa ter um significado. Só consigo trabalhar dessa forma.

De onde surgiu o desejo de ser escritor?
Aprendi a ler e escrever muito prematuramente, graças à minha mãe e minha avó e, talvez, tudo tenha começado nesses primeiros anos de vida. Mas, há um “dente” nessa história que provavelmente foi determinante. Quando chegou o momento de ser matriculado na pré-escola, já no primeiro dia de aula eu queria escrever, dominado pela fantasia do que seria uma classe. Foi muito frustrante quando a professora nos entregou massas de modelar. Recusei a proposta e fui para um canto da sala. Por alguma dessas razões extraordinárias que justificam os atos infantis, uma menina veio e lascou uma mordida no meu ombro. A professora perguntou: “Por que você mordeu ele?”, recebendo como resposta um simples “porque ele não quer 'fazer massinha' com a gente!” Voltou-se pra mim: “E por que você não quer 'fazer massinha'?”, que chorando disse: “Porque não estou aqui pra ficar fazendo 'bichinho de massinha'! Eu quero escrever!” A cicatriz no ombro ainda existe e, até hoje, a vida dá “dentadas”... mas, eu continuo escrevendo. É o meu ofício.

Por último, deixe um recado para os leitores do Literatura News e para os que desejam ser escritores no futuro.
Para jogar xadrez, não são suficientes apenas o desejo e a inteligência. É preciso dominar as regras do jogo. Aos escritores vale a mesma dinâmica: é fundamental ter o domínio da ferramenta linguística. Ninguém compra elixir para crescer cabelos vendido por um careca, certo?! Portanto, leia muito, leia tudo que puder; escreva muito, escreva tudo o quanto conseguir. Não existe uma fórmula mágica, mas há regras muito claras para quem deseja mergulhar nesse jogo. Domine-as.

RAPIDINHAS:
Uma pessoa: Meu marido, Tiago.
Um lugar: Os jardins do Palácio Imperial, em Petrópolis/RJ.
Um livro: “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz.
Um escritor(a): Annie Proulx.
Um desejo: O desejo atual é ter filhos.
Eu não gosto: De gente hipócrita.
Eu adoro: Meu cachorro, Google, e minha gata, Sorte.

Uma frase: “Nossa! Como esse menino está forte!”, uma forma delicada que minha avó Luzia encontrou para dizer que eu estava cada vez mais gordo! Lembro-me dela todos os dias durante os exercícios aeróbicos, correndo na esteira.
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